Em meio a uma greve no Canadá que se arrasta há quase nove meses, o presidente internacional do sindicato USW, Leo W. Gerard, conclamou o presidente da Vale, Roger Agnelli, a vender as minas localizadas no país caso a empresa insista na tese de que o negócio se tornará insustentável se os trabalhadores locais virem suas reivindicações atendidas.
"Se ele acha que as minas vão se tornar economicamente insustentáveis, ele deveria vendê-las", disse Gerard ao Valor na sexta-feira, no intervalo de uma conferência econômica em Washington, EUA. "Minha mensagem para o Roger Agnelli é que posso debater com ele esse assunto quando ele quiser."
Segundo relato de Gerard, os trabalhadores decidiram na semana passada, com aprovação de 88,9%, rejeitar a mais recente proposta da canadense Inco, controlada pela Vale, para encerrar a greve nas suas minas de níquel e cobre de Sudbury, na província de Ontário.
Cerca de 3,2 mil trabalhadores aderiram à greve, e os vários meses de impasse vinham degradando a relação entre o combativo sindicato local e a companhia. Mas, com suas declarações, Gerard subiu um degrau a mais nas animosidades. "Nunca vimos uma companhia tão arrogante e completamente desonesta com seus empregados e comunidade como a Vale", disse Gerard, que fez questão de ser explicitamente citado pela reportagem do Valor.
Gerard disse que, ao longo de nove meses de greve, não aconteceu nenhuma negociação significativa por parte da empresa. Ele frisou que, apesar de o lucro da Vale ser de "bilhões com B", a empresa "se dirige à comunidade para dizer aos trabalhadores que eles devem abrir mão dos seus planos de pensão e também para dizer que eles não poderiam mais ter sua participação nos lucros senão as minas se tornarão insustentáveis".
Procurada pelo Valor, a Vale Inco respondeu com termos igualmente duros. "Estou impressionado com o grau de desonestidade das declarações", disse Cory McPhee, um porta-voz da companhia. "Por favor, reproduza minhas declarações para que as afirmações (de Gerard) tenham uma resposta à altura", pediu, em conversa telefônica.
McPhee questionou as afirmações de que a Inco, nas suas propostas apresentadas aos trabalhadores, pretende cortar o plano de pensão. "Os atuais trabalhadores não vão perder absolutamente nada", sustentou. Ele também sustentou que "é um insulto" afirmar que a Inco está eliminando o pagamento de participação nos lucros aos funcionários.
O que há, afirmou, é uma mudança na forma como é calculada a participação nos lucros. Hoje, disse, o benefício se baseia 100% no preço do níquel, que é bastante volátil. Pela proposta da empresa, a participação nos lucros teria um vínculo maior com a performance da companhia como um todo. "Essa negociação diz respeito a poder sindical, não ao que é melhor para os trabalhadores", disse McPhee.
A Vale adquiriu a Inco no fim de 2006, em um negócio de quase US$ 18 bilhões, o qual transformou a empresa brasileira na maior produtora mundial de níquel.
Fonte: Alex Ribeiro, Valor Econômico - 15/03/2010
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