A volta ao lucro: aumenta o preço do ferro, aumentam os investimentos

 O ano começou animado para o setor de mineração. Na esteira da aquecida economia chinesa -que deve importar até 650 milhões de toneladas de minério de ferro em 2010 -, os preços do setor podem subir, na opinião de alguns especialistas, até 80%.

As negociações estão a todo vapor. Mais que uma elevação dos valores do minério de ferro e seus derivados, a força chinesa no setor, que em 2009 passou a demandar metade da produção global, pode alterar o sistema de precificação mundial.

 

 

A Vale sabe disso e está atenta a esta situação. Na sua última divulgação de resultados, deixou claro que vai agir com flexibilidade, seja na formação de preço, seja nas opções de mercado spot (à vista), seja no mercado de referência.

"O que estamos procurando é uma total flexibilidade no preço e no frete, em contratos de longo prazo ou totalmente local se for necessário. Não temos dogmas e acho que a crise nos ensinou que temos que ser mais flexíveis na nossa política e que precisamos ter todas as janelas abertas para usá-las de acordo com o momento do mercado. Por exemplo, hoje em dia todos os clientes estão enviando navios, porque querem obter o minério a preços de referência", afirmou José Carlos Martins, diretor executivo de ferrosos da Vale.

Além disso, a gigante brasileira do setor está se preparando para, estruturalmente, acabar com seu calcanhar de Aquiles em relação à concorrência, sobretudo a australiana, representada por BHP Billiton e Rio Tinto: está reforçando sua frota de navios com um plano agressivo de novas embarcações. Com isso, ficará mais fácil para a empresa trabalhar com a flexibilidade de preços.

A empresa avalia que, em 2009, havia uma grande janela de oportunidade que estava aberta e que foi aproveitada: foram adquiridos 17 navios, e outras duas dúzias de embarcações estão sendo construídas. Com a crise, o preço do frete permaneceu baixo em todo 2009 e deve continuar assim em 2010, mas a empresa espera elevações a partir de 2011 e quer ter uma frota eficiente para fazer frente a este custo.

Retomada dos investimentos

Os preços mundiais da tonelada do minério já estavam, no começo de março, cotados a US$ 130, contra US$ 100 no ano passado. A China, depois de viver em 2009 um crescimento de demanda de cerca de 40%, quando importou 627 milhões de toneladas, deve fechar 2010 com a compra de 650 milhões de toneladas.

Além disso, o mercado dos países desenvolvidos, como Estados Unidos, Europa e Japão, deve voltar a crescer, mesmo sem recuperar todas as perdas causadas pela crise.

Isso já fez as empresas retomarem investimentos. A Vale, por exemplo, pretende inaugurar este ano sete novas plantas pelo mundo, incluindo, segundo o diretor financeiro da empresa, Fábio Barbosa, projetos em Carajás (PA), no Chile, na Argentina e em Omã. "É mais uma demonstração da nossa confiança no desempenho do setor", afirmou Barbosa.

Outras empresas seguem na mesma toada. Wilfred Bruijn, diretor de Mineração da Usiminas, lembra que a demanda por minério de ferro não só recuperou os níveis pré-crise, como já subiu. Por conta disso, a empresa vai elevar a produção, que em 2009 foi de 5,5 milhões de toneladas, para 7 milhões de toneladas neste ano.

"O preço agora está de volta aos patamares de 2008, mas sem dúvida a tendência é de alta", afirmou. "Não participamos da formulação mundial do preço do minério de ferro, mas nos beneficiamos do atual momento". As boas condições de mercado animam a Usiminas a fazer uma divisão de ativos, separando a atividade de mineração das unidades de logística, como portos e ferrovias.

Com isso, ainda neste ano, a empresa espera encontrar um sócio estratégico e, talvez ainda em 2010, abrir seu capital na bolsa. "A nova estrutura societária, com a divisão dos ativos por atividade, será fundamental para nosso plano de longo prazo, de chegar a produzir 20 milhões de toneladas de minério por ano".

Formação de preços

O atual sistema anual de formação de preços do minério, que foi criado há cerca de 30 anos para garantir maior estabilidade de custos ao mercado, pode mudar. Isso porque o mercado está cada vez mais nas mãos da China, que hoje já representa mais de 45%da produção de aço bruto e é líder na produção de carvão.

Uma das mudanças cogitadas é que a negociação de preços entre as principais mineradoras do mundo passe a valer por trimestres ou mesmo bimestres, em vez de uma vez ao ano. Um exemplo desta tendência ocorreu na última segunda.

A australiana BHP Billiton fechou um contrato trimestral com siderúrgicas japonesas para fornecimento de coque de carvão que prevê um aumento de 55% entre abril e junho.

De acordo com especialistas, a alta do coque de carvão afeta diretamente as negociações em andamento para determinar os preços do minério de ferro.

 

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