"Eles precisam de minério e nós precisamos vender"
A situação do mercado de minério de ferro, no momento, é de maior aperto na oferta do que em 2008, antes da crise que derrubou os mercados, admitiu ontem o diretor-executivo de metais ferrosos da Vale, José Carlos Martins. "Hoje, o mercado encontra-se, talvez, numa situação parecida ou até mais apertada e com uma grande diferença. A participação da China na demanda do mercado é muito maior do que era naquela época, além de ter um crescimento da procura por parte do Japão, da Europa e do Brasil. É uma situação bastante positiva para as empresas mineradoras".
Indagado sobre as projeções de 50% de aumento no preço do minério para este ano feito pelo banco Merrill Lynch, Martins evitou falar do assunto, mas comentou que os analistas levam muito em conta a situação de curto prazo, o que dificulta prever tendências.
No ano passado, os embarques da Vale para a China cresceram 40% e até setembro somaram 110 milhões de toneladas de minério de ferro que foram suprir os altos-fornos das siderúrgicas locais. É possível que o fechamento de 2009 tenha ficado em 130 milhões de toneladas. O desempenho do último trimestre ainda não foi divulgado pela companhia.
Martins disse que a intenção da mineradora é manter o volume de vendas de 2009 para os chineses. Tudo vai depender da performance do mercado europeu e de quanto a empresa produza de minério este ano. O executivo calcula volume na faixa de 300 milhões a 310 milhões de toneladas, capacidade nominal de produção da companhia. "Já estamos trabalhando no limite de nossa capacidade", a
firmou. Em 2008, a Vale embarcou um total de 280 milhões de toneladas de minério de ferro. O volume do ano passado, devido a problemas no primeiro semestre, ficou abaixo disso.
Na projeção de Martins, o mercado transoceânico de minério deve ter este ano uma demanda de 900 milhões de toneladas, acima das 850 milhões de toneladas de 2008, que ele estima deve ter se repetido em 2009. A oferta de minério neste mercado é avaliada pelo executivo próximo da demanda. Entretanto, reconhece que ter uma dinâmica de demanda em recuperação no Ocidente e uma demanda forte na Ásia "leva a um quadro de escassez".
No ano passado, os chineses não acertaram um preço de referência ("benchmark") com as mineradoras, apesar de que algumas siderúrgicas chinesas até operaram nesse modelo de acerto de preços (o valor acertado com um cliente é seguido pelos demais). Mas o que prevaleceu na China foi mesmo o mercado "spot" (à vista). Indagado se isso poderá ocorrer nas negociações de preço deste ano, o diretor executivo de ferrosos da Vale argumentou: "não vou fazer suposições, porque gera muita polêmica". Segundo eles, "os contratos (de longo prazo com as siderúrgicas da Ásia) vencem em março e estamos num processo para definir qual será a nossa situação", acrescentou. "Eles precisam de minério e nós precisamos vender minério. Esses dois fatores vão acabar levando a uma situação altamente satisfatória", declarou Martins.
A retomada do mercado de minério está levando a recontratação de pessoal pela Vale. Recentemente, a mineradora retomou atividade em várias minas do Sul e Sudeste e está para reativar a pelotizadora de São Luís, no Maranhão. E para isto vai contratar pessoal naquele Estado. Até o final de 2009 foram contratados 300 trabalhadores e a Vale somou até dezembro 60 mil empregados, dos quais 45 mil no Brasil. Em 2008, eram 62.490 e 47.033 no país. Para 2010, a empresa pretende contratar "milhares" para seus investimentos de US$ 12,9 bilhões.
O diretor da Vale falou durante o anúncio que a mineradora será a patrocinadora oficial do Pavilhão Brasileiro na Expo Xangai 2010, por ser a empresa que mais negocia com a China.
Fonte: Vera Saavedra Durão, Valor Econômico


Comentar