Negócio pode superar R$ 9 bi; instituição tem 17,5% da controladora da mineradora.
Para analistas, negócio faz sentido para o Bradesco, que teria reforço no caixa para adquirir instituições financeiras menores.
O empresário Eike Batista tenta tornar viável o que pode ser o maior negócio de sua vida: entrar no controle da Vale, comprando a fatia do Bradesco.
A Folha apurou que, em 19 de agosto, o empresário esteve na sede do Bradesco, em Osasco (SP), para entregar a Lázaro Brandão, presidente do conselho de administração do banco, proposta de compra da Bradespar, que reúne ativos não financeiros da instituição.
A Bradespar tem 17,5% da Valepar, controladora da Vale com 53% de seu capital votante. Os outros sócios na Valepar são Litel (de fundos de pensão, liderados por Previ), com 58%, BNDESPar, com 9,5%, e o grupo japonês Mitsui, com 15%
Resta saber se o Bradesco quer vender sua empresa de participações. O negócio pode superar os R$ 9 bilhões, contabilizada a oferta que Eike terá de fazer aos acionistas minoritários caso seja bem-sucedido.
O grupo Bradesco tem pouco mais de 25% do capital da Bradespar. Outros sócios são os bancos Espírito Santo, Geração Futuro e Credit Suisse Hedging Griffo (por meio de fundos de investimento) e a gestora americana BlackRock. Investidores menores têm 58%.
A Folha apurou que, antes de fazer a oferta, Eike procurou saber a opinião do presidente Lula, com a ajuda do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Recebeu do presidente o aval para seguir em frente.
O mesmo movimento foi feito em relação ao presidentes do BNDES, Luciano Coutinho, e da Previ, Sérgio Rosa, tendo obtido indicações iguais.
Mesmo sem demonstrar explicitamente intenção de gerir a empresa, Eike procurou mostrar-se como "um homem comprometido com o desenvolvimento do Brasil".
Essa movimentação ocorreu em paralelo ao momento em que o governo demonstrava insatisfação com os rumos da Vale, em meados deste ano.
Em agosto, a Folha revelou que Lula havia sinalizado ao Bradesco seu desconforto com o desempenho da Vale. Com a crise, a empresa havia demitido e cortado investimentos. Depois, Lula e o presidente da empresa, Roger Agnelli, acabaram "acertando os ponteiros".
Em Brasília, o empresário não é visto como capaz de dar à Vale um rumo mais afinado com política do governo. Mas não há objeção à sua entrada.
As portas de Eike no Bradesco foram abertas pelo banqueiro André Esteves, sócio da BTG. Esteves tornou-se, nos últimos meses, próximo a Brandão -e Eike, ligado a Esteves, aproveitou para pedir-lhe apoio no contato.
O apoio financeiro viria, além do BTG, de instituições como Credit Suisse e Itaú Unibanco. Eike também tentou obter apoio de Agnelli no projeto, mas não conseguiu.
Estilo
A lógica da negociação é pouco clara. Nos últimos cinco anos, o empresário criou -e controla- as empresas MMX (mineradora), LLX (empreendimentos de logística), MPX (empreendimentos de energia) e OGX (petrolífera).
Com a venda, em 2008, de parte da MMX à Anglo American por US$ 5,5 bilhões e a abertura de capital de três empresas, Eike ganhou fama de criar projetos e vendê-los bem, aproveitando-se da euforia econômica mundial e do ciclo de alta das commodities -enterrados com a crise.
Comprar a Vale significaria entrar em uma empresa madura e discutir questões estratégicas da operação, algo que, segundo pessoas próximas, pouco tem a ver com o perfil dele.
Por outro lado, Eike tem uma ligação sentimental com a Vale. Seu pai, Eliezer Batista, foi presidente da companhia em 1961 e de 1979 a 1986. Quando criou a MMX, em 2006, Eike se referia à empresa, reservadamente, como "mini-Vale".
A Folha apurou que a entrada na Vale também abriria espaço para que a gigante absorvesse a MMX e a LLX.
Desde o fim de 2008, Eike tenta vender o que sobrou da MMX (minas com minério de segunda linha em Minas Gerais e em Corumbá). Já a LLX enfrenta ação civil pública do Ministério Público Federal contra o porto do Açu, no Rio, seu maior projeto. De qualquer forma, elas são um problema a ser resolvido com os possíveis novos sócios, por configurar conflito de interesses.
Se chegar à Vale, Eike terá que costurar novo acordo com os acionistas da Valepar. O acordo hoje existente resultou em delegar à Bradespar a nomeação de Agnelli. Eike cogita se candidatar à presidência da empresa, além de conselheiro.
Para analistas, a venda faz sentido para o Bradesco porque a fusão de Itaú e Unibanco deixou o banco para trás no ranking dos maiores. A venda traria reforço no caixa para aquisições de bancos menores.
Procurados, Eike, Previ, BTG, Vale e Bradesco não comentaram as informações.
Fonte: Folha de São Paulo, 5 de Setembro de 2009
SAMANTHA LIMA
DA SUCURSAL DO RIO
Foto: http://deoutramaneira.files.wordpress.com
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