Pouco mais de mil e duzentos trabalhadores da Oderbrecth consórcio da companhia mineira Vale paralisaram na manhã desta quinta-feira as suas actividades. Os trabalhadores prometem só regressar as suas actividades depois de ver a situação regularizada.
Trata-se da segunda paralisação que ocorre em menos de dois meses, à semelhança da primeira onde os mais de mil e duzentos trabalhadores da Oderbrecth consórcio da Vale virada a construção de infra-estruturas daquela companhia mineira exigem da empresa, o reajuste do salário e a melhoria das condições de trabalho.
Os trabalhadores que prometem só regressar as suas actividades depois de ver a situação regularizada reclamam ainda o direito de gozo de fim-de-semana e a redução da carga horária das actuais nove horas e meia para oito horas diárias tal como vem estipulado na lei de trabalho em vigor no país.
Não foi possível ouvir a direcção da empresa Oderbrecth, entretanto através de um contacto telefónico com o Analista de Comunicação da Vale Victor Nhantitima ficamos a saber que uma delegação de alto nível está desde ontem em Tete na perspectiva de solucionar o problema.
Antes disso, o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Indústria de Construção Civil e Minas reuniu-se com a direcção da empresa e chegaram a um entendimento.
Refira-se que a Vale está implantando o projecto Carvão Moatize que deverá entrar em operação no primeiro semestre de 2011, sendo que nesta fase de construção prevê-se a contratação de quatro mil trabalhadores.
Por Bernardino Conselho
Fonte: O País online - http://opais.sapo.mz
Comentário á notícia, por Carlos Serra
Fonte: Canal de Opinião, www.canalmoz.com
Os Bismarcks não são moçambicanos
Maputo (Canal de Moçambique) - A propósito da multinacional brasileira Vale, o "O país" escreveu o seguinte: "A mina de Moatize deverá produzir, nos próximos 35 anos, 11 milhões de toneladas de carvão metalúrgico e energético que serão exportadas para os mercados do próprio Brasil, Ásia, Europa e Médio Oriente."
E, assim, vamos ampliando a nossa alma exportadora, o nosso coração matéria-primal. Exportamos e exportaremos (melhor: fazem-nos exportar), em parcerias assentes, do nosso lado, em réditos fiscais, mordomias redentoras e modestos salários pagos aos trabalhadores. Não se vislumbra qualquer intenção de favorecer a burguesia nacional, de a estimular, de a levar à industrialização, de a proteger. Decididamente os Bismarcks não são moçambicanos. Parecemos ser definitivamente recolectores, recolhemos impostos e mordomias, construímos as estradas e as pontes para o que vamos exportar.
A mentalidade produtora e transformadora, essa fica com os outros. Os nossos genes são feitos de circulação, não de produção industrial endógena. Mas para não perdermos muito a nossa auto-estima - deixem-me usar o guebuziano termo da moda -, cá temos o capitalismo comercial do ou-vai-ou-racha do chapa 100, do dumba nengue, do import-export de Xiquelene.
E os camarões e as amêijoas e os carangueijos e os leões e os búfalos para turistas que podem pagar pacotes de cinco mil dólares deliciados com o exótico africano. E no que ao conforto toca, sentamo-nos nos sofás que importamos depois de termos desalmadamente exportado a nossa rica madeira. E se não podemos sentar-nos nos sofás, sentamo-nos no senta-abaixo bebendo cerveja produzida por capitalistas estrangeiros orgulhosos do selo "made in Mozambique".
Passamos horas em workshops (esquecemos até o termo seminários), criamos mestrados por atacado para formação em economia, convidamos excelsas cabeças pensantes para nos ensinarem como se fazem negócios, convidamos todos e sobretodos para virem investir no nosso país, estabelecemos parcerias inteligentes não importa com quem.
Mas algum dia se fez neste país um workshop a sério, prolongado, sobre como erguer e ajudar a manter a indústria moçambicana? Sobre como proteger a nossa burguesia? Sobre como financiar os nossos empresários, não os empresários com mentalidade chapa 100, mas os empresários que queiram investir na produção a sério? Sobre como assegurar facilidades bancárias e juros preferenciais? Sobre como travar o acesso dos produtos estrangeiros que fazem colapsar os nossos? Sobre como sermos um Estado forte ao service de uma indústria forte, genuinamente moçambicana?
Não: não fizemos, nem fazemos. Por quê? Porque estamos a jusante, porque somos matéria-primados, orgulhosos por exportamos o que os outros transformam para seu benefício. Não é a amêijoa saborosa? Não está o camarão produzido pela natureza? E não é carvão definitivamente carvão? E que importa se dentro de 35 anos apenas restar o choro final dos embondeiros da minha terra, se, entretanto, não tiverem dado cabo deles (consta-me que os abatem)?
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