A Campanha Justiça nos Trilhos continua seus encontros no FSM. A segunda oficina, coordenada por Edmilson Pinheiro (Fórum Carajás, Maranhão) tinha como principal objetivo debater os impactos causados pela Vale sobre as pessoas e o meio ambiente nas diferentes regiões em que a ela atua.
A palestra foi iniciada por Bruno Milanez (Fundação Oswaldo Cruz e Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Rio de Janeiro), que apresentou um panorama geral da expansão do setor siderúrgico no Brasil e apontou que, se as empresas concretizarem seus os planos de produzir, em 2012, um total de 78 milhões de toneladas de aço, elas precisarão anualmente de 1,2 bilhão m3 de água (equivalente a 75% de toda a água distribuída no estado de Minas Gerais) e 28,2 mil GWh de eletricidade (a energia consumida por todas as residências da cidade de São Paulo).
Em seguida Karina Kato (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Rio de Janeiro) e Ivo Sequeira (Associação dos Aqüicultores e Pescadores da Pedra de Guaratiba, Rio de Janeiro) descreveram o processo de implantação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (uma parceria da Vale com a empresa alemã ThyssenKrupp). Entre os problemas enfrentados na localidade, eles citaram a dificuldade que os pescadores têm enfrentado para realizar seu trabalho devido às atividades da empresa, a destruição ilegal de áreas de mangue, e a presença de trabalhadores chineses contratados ilegalmente para atuar na construção da siderúrgica.
A realidade da região de Carajás, um dos principais focos de atuação da Vale, foi apresentada por Raimundo Cruz Neto (Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular, Pará). Raimundo resumiu o processo histórico da implantação da empresa, associado ao Projeto Grande Carajás, e relatou como grandes empreendimentos minerais desestabilizam socialmente pequenas cidades, trazendo uma grande população de migrantes e aumentando problemas como falta de esgoto, atendimento médico, alcoolismo, violência e prostituição.
Fechando a descrição dos casos nacionais, Isabela Lopes Cançado e Frei GilvanderMoreira (Movimento pelas Serras e Águas de Minas, Minas Gerais) apresentaram diferentes casos de conflitos decorrentes das atividades de mineração da Vale em Minas Gerais. Eles descreveram como a mineração próxima à Belo Horizonte tem colocado em risco o abastecimento de água de milhares de pessoas na área metropolitana, e como a Vale pressiona pequenos proprietários de terra para sair de terras onde a empresa tem interesse de atuar.
Por fim, Inaldy Cofre (Observatorio de Conflictos Mineros de America Latina, Chile) discutiu a as estratégias de uma filial da Vale no Chile. Ao longo de sua exposição, Inaldy descreveu como a pressão popular conseguiu fazer com que o projeto Pampomono fosse retirado do Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental do Chile. Entretanto, ele ainda contou como a empresa voltou a apresentar o mesmo projeto, modificando o nome para Tres Valles; dessa vez promovendo a divisão entre a população e afirmando que se os moradores não aceitassem as condições da empresa, eles teriam que sair sem compensação.
Cada vez mais, entre os parceiros da campanha Justiça nos Trilhos, se reforça a convicção da importância da pressão popular, para garantir que a empresa e suas subsidiárias respeitem as pessoas dos locais onde elas atuam: esse respeito não tem sido garantido pelo Estado.
Além de discutir como a empresa opera, é preciso refletir sobre a necessidade de tanto aço e tanto minério na nossa sociedade: que modelo de desenvolvimento estamos buscando? Como podemos trilhar caminhos de transição que construam uma sociedade menos dependente dos recursos minerais?
A discussão sobre a Vale continua no FSM, as perguntas crescem e com elas a vontade comum de buscar alternativas à violência da multinacional.
Comentários
Comentar